segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Vou andando pela rua atravessando todas as ruas e saio de sobresalto de um terrível atropelamento que concebi em minhas retinas bem antes do carro se aproximar da esquina. Desviei meu corpo em uma cambalhota, e outra cambalhota e me esmaguei entre as laranjas derramadas no chão, caixas de laranjas massacradas, meu corpo necessita um abrigo, estou sangrando suco de laranja, precisa de um médico, Doutor pode fazer algo por mim... Sinto muito, meu filho, você está condenado. Estou? Não, acho que não. Talvez louco. Imagine se um dia eu for internado? Imagina se alguem de coração frio leia este diário e me acuse perante todos, Ele é um perigo para sociedade, um perigo para si mesmo. Há muitos anos atrás o meu passado era mui atraente. Fui pistoleiro nas gargantas do Grand Cannyon e corria no lombo de meu cavalo de pelo pardo. Então durante uma operação de assalto à diligência do Governador, quando eu estava prestes a conseguir a mira exata do centro de sua testa, cavalgando rápido ao lado da carruagem, meu cavalo quebrou o pé, pobre coitado. Minha testa foi direto de encontro à poeira do solo. Uma das rodas da carruagem decepou meu braço direito, o gatilho mais rápido do continente. Tornei-me um velho aleijado de merda. Mas não hoje. Hoje eu morri. Eu menti para vocês. Não houve nenhuma cambalhota, e outra cambalhota, tampouco as laranjas que me feriram a carne. O céu é azul, cinza, preto, nada. Sono. Porque o pavor? Ei, ei, se acalme. Está tudo bem. Não dói mais. Mas te faz sentir falta de muitas coisas. Do amor, por exemplo. E também das flores. Vozes, também. Brisa, ah, a brisa. Meu bom e velho braço de guerra, que desfez bandidos e amassou garotas, nunca enxugou minhas próprias lágrimas, pois elas nunca existiram. Exceto neste instante. Foi preciso morrer para aprender a importância de morrer. Economize o pranto. Rolei ribanceira abaixo naquela calçada de concreto. Agora estou sentado num banco de praça, aqui em algum lugar que não consigo descrever. Um lugar que não é lugar nenhum. Um véu de seda do avesso. Uma sutileza de calor misturado com frio. Um poste frio esmagado. Um sonho caído.

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